Primeiro Filho – Crônica de Guarnieri
E o apito da fábrica alegrou mais de mil e quinhentos operários. Metalúrgica. Fim de mais um dia de trabalho.
- Corre, Cabeleira!
- Mete ficha, Cardoso! Praça Clóvis!
- Hoje num vô. Tenho de passá em casa de Marieta!
- Te cuida, menino! Num volta pra casa cansado que a patroa desconfia!
- Deixa isso pra lá…
Um rapazote aloirado voltou-se arreganhando a boca num sorriso.
-Praça Clóvis, vamo lá?
- Hoje não, tenho de passá no hospital…
- Doença em casa?
Arreganhou mais a boca:
- Que nada. Filho.
- Que filho é esse, rapaz?
- Meu e de minha mulhé, uai!
- Não!
Fechou o sorriso:
- E por que não?
- Pessoal! O espinhudo vai ser pai!…
Num instante foi envolvido pelos companheiros. Tapas nas costas, gozação, arrastaram-no para uma pinga.
- Filho, é Curumim? E tu já sabe fazê isso!
Agora o menino sorria gostoso, avermelhando mais as espinhas.
E no hospital, a nº. 3.159 – Alice Marzioto – deu à luz mais um paulistano descendente de italiano. Filho de Pedro, vulgo Curumim – sabe-se lá porquê.
Pedro encostou o rosto no vidro do berçário esborrachando o nariz. De dentro, uma enfermeira de máscara, com um sinal, mandou que ele desencostasse. Pedro obedeceu e perdeu o olhar no meio de tanta criança. Um mundo cor-de-rosa e azul. Quantidade de gente pequena. Não descobriu o filho apesar do desespero e de empenhadas tentativas. No quarto, vendo Alice, não conseguiu dizer coisa nenhuma.
Arreganhou a boca num sorriso e ela também lhe sorriu, satisfeita com o dever cumprido. Achando que devia dizer alguma coisa, galanteou:
- Bobona!
- Bestalhão!
E ficaram mudos, sorriso aberto, pensando.
Pedro conheceu José, o filho.
- Como é feio, minha Nossa Senhora!
- Feio coisa nenhuma! Alice se aborreceu e apertou o menino contra o peito. Mas veio a enfermeira e sumiu com ele da sala.
Mais um meio mundo de mulheres no mesmo estado. Mães numeradas, tudo certinho para evitar trocas. Desespero de Pedro é que trocassem a criança. Quando veio a conta, começaram as complicações. Soma que soma, o dinheiro não dava:
- E o sindicato, Curumim?
- Hum?
- O sindicato?
Curumim não era sindicalizado. E veio a afobação; pede aqui, pede ali, mais somas. E nada. Conta alta.
- Que é duro ter filho nessa terra!
Nada. Pedro só retiraria a mulher e a criança com a conta paga. Alice desesperou.
- Quero ir embora pra casa. Quero o Zezinho.
- Num chora, boba… Se dá um jeito.
E como o dinheiro não arranjava mesmo, procurou outras fórmulas. E ficou sabendo que um tal de enfermeiro, por uma quantia bem mais razoável, poderia quebrar o galho:
- Mas o senhor garante?
- Apareça lá. À uma hora, sem atraso. Deixe o carro pronto;
- Mas não tem perigo?
- Qual é, baixinho?
E Pedro acertou com o Jurandir, chofer de táxi seu vizinho. E, precisamente à uma hora da manhã, estava à espera no local combinado. Uma esquina, nos fundos do hospital. Abre-se uma janela e descem uma corda feita de lençol. No parapeito, camisola branca, surge Alice e o rosto alegre do enfermeiro. Devagarinho ela desce, Pedro embaixo, coração na boca. Alice chega ao chão, abraçam-se e riem, como eles riem! Logo atrás o enfermeiro, segurando Zezinho. O menino parecendo entender mantinha-se calado, olhão arregalado para o céu sem estrelas. Entraram no táxi e voaram para casa. E continuaram rindo até a casa, Alice com Zezinho no colo. Jurandir não aceitou tostão, ofereceu a corrida. Chegando, arrumaram Zezinho na gaveta do armário forrada com capricho. E riram até de manhãzinha.
Ùltima Hora, terça-feira, 4 fev. 1964, p.2, UH-Revista
