Os momentos de Zorro – Crônica de Guarnieri
Cada manhã, ao ver o sol passando tênue pelas frestas do barraco, levantava-se devagarinho para não acordar o resto, pegava as coisas e saia, pé ante pé, dominando a favela inteira com um olhar seguro de senhor do mundo. Era mulato e criança, cabelo crespo com tons de loiro, camisa e calças largas, em azul e branco, fardamento do grupo. Manchas esbranquiçadas pelo rosto e corpo. Acocorava-se à porta do barraco, miraculosamente erguido na elevação que abruptamente descia para o rio num negro e misterioso precipício, atemorizador e atraente. Aos saltos, um tanto fauno, procurava o seu refúgio. Moita alta e espessa, distante do casario arruinado. Lá, ninguém se atrevia. Depósito do inútil, inferno de lixo mal-cheiroso, terra de bichos e nojo. Dali, saia transformado e temível. Chapéu de feltro, abas amolecidas, máscara negra, um lenço descorando amarrado na nuca, cobrindo-lhe o resto do rosto, a capa verde e curta rasgada nos ombros, amarrada ao pescoço por um barbante vermelho. Na cinta, um revólver de madeira e uma longa espada de arame, punho conseguido com uma manopla de bicicleta. O jovem Zorro abandonava o refúgio e ia à procura do bando. Todos quase do mesmo tope, decididos e obedientes, venerando em cega obediência o chefe temível. Esperava-os um a um, próximo à casa do companheiro, convocando-o com o assobio convencionado. O partidário de Zorro olhava para os lados, verificava se, em casa, não era observado, e apresentava-se feliz, entregue, pronto para novas aventuras. Eram dezesseis, fardamentos dos mais bizarros. Sobressaia-se o chefe com sua capa verde e olhar seguro. As estripulias não tinham conta. Primeiramente, era de hábito esperar os “fresquinhos”. A meninada que comportadamente se dirigia à escola. Interceptavam-nos com violência, aos tapas e pedradas. Após a breve escaramuça, era feito o inventário. Estojos, cadernos, alguns livros e pedaços de calças e camisas, roubados ao inimigo no embate. Depois, breves assaltos a carrocinhas de fruta. Perambulações proveitosas entre as barracas quando dia de feira. Banhos no rio lamacento. Perseguição a meninas sozinhas. Os momentos de excitação e esquecimento com elas nos escondidos de um barraco. Até que vinha a noite e retornavam ao barraco, contando coisas da escola que não viam, mentindo trabalhos nunca realizados, inventando coisas, sossegando os responsáveis. O Zorro, novamente reduzido ao simples mulatinho de manchas esbranquiçadas, despojado da capa e das armas, menino comum, à noitinha enfrentava seus mais perigosos e difíceis momentos. O pai, um tipo espanhol de largas sobrancelhas cerradas, agarrava-o com suas grandes mãos e punha-o de joelhos para ajudar na pintura de bonecos de borracha. O Zorro era hábil, fazia o fundo enquanto o pai dava figuras aos bonecos, criando carantonhas estranhas, peixes, palhaços, sereias, caras vesgas e risonhas. O jovem Zorro ouvia atento, imaginando. Eram histórias terríveis de roubos, brigas e mortes. De lutas em navios, guerras, revoluções sangrentas. E quanto mais o pai se exaltava com o próprio relato, o Zorro encolhia-se medroso. Quase sempre a noite acabava em pancadaria. O homem desabafando no pequeno uma neurose de há tempos. E no seu canto, olhos muito abertos na escuridão da casa, o Zorro revia as imagens evocadas pelo pai. Homens em luta, destroçando-se, lutando por alguma coisa que ele não sabia e que o pai não esclarecia. Eram terras distantes, havia um mar imenso. E adormecia. Um dia, já nas vestes do temível Zorro, escoltado pelo bando fiel, arremessou contra um grupo de meninos que ia para a escola. Um deles não arredou pé e resistiu ao olhar de Zorro. O mulatinho ajeitou a capa com garbo e, riso escondido sob a máscara, ameaçou:
- Me dá tuas coisas, senão te quebro a cara e te deixo nu!
O outro piscou. Sabia que não poderia enfrentar o Zorro e o bando. Engoliu em seco e defendeu-se:
- Pode ser. Mas o que eu sei, você não sabe. – Apontou para o sol. – Aquilo é uma estrela de quinta grandeza!… Castro Alves foi o poeta dos escravos… Tiradentes morreu pela Independência… Deodoro proclamou a República… O Everest é a montanha mais alta do mundo…. E foi desfiando conhecimentos gerais, punhos cerrados, olhos cheios d’água. O Zorro arrancou o lenço do rosto, ofegante.
- E a Guerra Civil Espanhola?
O outro sentiu-se aliviar:
- Houve sim…Não sei direito. Vou perguntar e depois eu conto.
Marcaram encontro para a noitinha. O outro veio com a informação. E modificou-se o bando. O Zorro abandonou assaltos e brigas. Formaram um círculo de estudos dirigido pelo novo companheiro. Só continuaram a perseguir as meninas
Última Hora, segunda-feira, 2 de março, 1964, p.2, UH-Revista

Julho 13, 2008 às 12:53 am
Guarnieri sempre genial, sempre profundamente comprometido com o povo… Viva Guarnieri!