Homens Propaganda – Crônica de Guarnieri
Hoje é dia 6 de agosto e Guarnieri estaria fazendo 74 anos. Mais uma crônica publicada para comemorar!
Homens-Propaganda
Espremia-se no quarto pequeno. A cama estreita quase tocando no armário barato, dificultando a passagem. Casimiro ajoelhou-se na cama e, língua entre os dentes pelo esforço, abriu a porta do guarda-roupa. Embora não tivesse escolha diante do único terno dependurado, ficou alguns instantes indeciso. Finalmente, pegou o cabide, observou a roupa surrada e começou a vestir-se.
Assobiava alegremente. Penteou os cabelos com cuidado, ajeitando meticulosamente os fios rebeldes. Admirou-se em frente à vidraça partida da janela que refletia a imagem de um jovem magro e deselegante de longos braços e pernas, pescoço comprido que segurava uma cabeça menor do que o exigiria a envergadura do corpo. Arrumou o colarinho e, satisfeito consigo, saiu do cubículo, descendo às pressas a escada de degraus rangedores. Deixou o casarão escuro da pensão e foi ao encontro da namorada. Parou numa banca de jornais e comprou uma revista de histórias de amor. Daria de presente. Júlia ficaria contente, gostava muito de fotonovela.
Encontraram-se no portão da casa dos patrões de Júlia, ela já estava à espera num vistoso vestido amarelo, de sapatos vermelhos. Cumprimentaram-se com um aperto de mão e ficaram parados sem saber muito o que dizer, envergonhados, bastante constrangidos. Coube a Casimiro a iniciativa. Estendeu-lhe a revista:
- Tó. Comprei pra você.
Júlia folheou a revista com um sorriso acanhado e devolveu-a com um trejeito:
- Ah, fica com ela. Essa eu já li.
Casimiro enrubesceu.
- Que pena! Puxa, se eu soubesse. Não faz mal, a gente compra outra… Quer ir a algum lugar?
A moça sorriu de novo, com acanhamento…
- Vamo ao cinema, uai!
- Ao cinema? – Casimiro rapidamente procurou fazer as contas. Não dava. Se quisesse levá-la ao cinema, ficava sem tostão para o resto da semana. Não lhe agradava perspectiva de jejum. Procurou desculpas…
- É… cinema é sempre divertido… Mas a gente quase nunca que conversa. Quem sabe um passeio por aí… a gente fala um pouco, se entende, se conhece melhor…
- Quero ir ao cinema.
Não houve jeito. Foram. Casemiro começou mentalmente a fazer a lista dos que poderiam emprestar-lhe algum dinheiro. Não conhecia quase ninguém. Assistiram à fita em silêncio, de mãos dadas. Casimiro procurava esconder a preocupação.
Na saída, ela abraçou-o carinhosamente.
- Agora a gente conversa… Conta de você, do seu trabalho…
- Sei não…
- Resolve, ué. Estou aqui para servir…
Casimiro puxou pigarro:
- Bem… Eu trabalho por conta própria. Bom negócio. Mecânica.
- Que bom. Sempre quis namorá um mecânico.
- Pois então, está namorando…
Riram.
- Você ganha bem?
- Dá pro gasto. Sabe, né. Trabalho por conta varia muito. Tem mês que se tira cem mil, cento e cinqüenta e assim vai indo.
E contou prosa até a casa. Beijaram-se. Ela acenou, ele também. Marcaram encontro para o fim da semana.
Dias depois, estava Casimiro no seu verdadeiro trabalho. Fardado, muito cheio de goma, de quepe e cantil, metido numa fila de homens-propaganda, um cartaz armado sobre a cabeça, muito cabisbaixo caminhando pelo centro. Homem-objeto, homem-nada, rosto neutro em meio a outros homens-coisa-nenhuma, atarantados, ouvindo ordens do capataz que, caminhando um pouco apartado, exigia postura correta. E caminhava exibindo o cartaz da loja de tecidos quando viu, bem na esquina, alegre e vestindo de amarelo, a namorada Júlia. Ficou em desespero, procurou esconder o rosto. Chamou o capataz e pediu para sair da fila. Foi repreendido com grosseria. Lá vinha Júlia com uma companheira. Era inevitável cruzar com ela. E deu-se a catástrofe. Júlia olhou para a fila de homens-propaganda, atenta e penalizada. Casimiro ouviu seu murmúrio:
- Coitadinhos! – E logo depois seu grito – Casimiro!
Ficaram um instante, espantados, olhando um para o outro. Ele impedindo o andamento da fila. E ela estourou numa gargalhada que o estraçalhou inteiro. Nunca mais se viram, nem encontraram.
Última Hora, quinta-feira, 26 mar. 1964, p.2, UH-Revista
