Colaterais – o caso Marília Medalha

Posted in Política on abril 1, 2012 by cacaug

Anos atrás, pensei  um projeto  específico dentro do projeto geral do Brasil Nunca Mais. Sabemos quase precisamente o número de perseguidos, cassados, presos, torturados, mortos, desaparecidos, exilados, banidos durante a ditadura militar. Um brasileiro disse: “nunca tantos  brasileiros sofreram tanto durante tanto tempo.”  Foi uma longa noite que desceu sobre todos os brasileiros.

Esse projeto  recolheria depoimentos de pessoas que não foram pessoalmente  atingidas pela repressão militar, ou seja, não foram presas, torturadas, exiladas, banidas etc.etc  Mas tiveram suas vidas completamente alteradas, sofrendo muito e por muito tempo. Tantos por toda a vida. Familiares, amigos, colegas de escola e de trabalho, patrões e empregados e mais.   Seria importante aplicar um multiplicador, a ser definido por alguma pesquisa amostral,  sobre as vítimas contadas. No limite, pode-se afirmar que todo o povo brasileiro foi vitimado pelos golpistas miitares, fortemente apoiados pelos poderosos, ou phoderosos como dizia minha mana Dina Sfat.

O sujeito de minha proposta são os que sofreram por causa de pessoas de alguma forma próximas . Há dois anos publiquei uma nota no Facebook sobre minha outra irmã Marília Medalha, que ilustra bem o que digo aqui. Publico, com algumas adaptações, para incluir, nas tarefas que caberão à Comissão da Verdade, também esta dimensão.

Dia 14 de abril de 2010, minha queridíssima irmãzinha Marília Medalha teve deferido seu requerimento, junto à Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, por reparação que a nação lhe devia pelo que sofreu nos anos de chumbo.

Sou amiga de Marília Medalha há 47 anos. Somos irmãs em tudo. Acompanhei e acompanho sua vida, seus sucessos, seus revezes durante todo esse tempo.

No princípio do ano de 1969 Marília estava no auge de sua carreira de cantora, fazendo enorme sucesso na televisão e sendo muito requisitada para apresentações em shows e eventos em geral.

Nesta época, as forças da repressão prenderam seu marido Isaias Almada, sob acusação de terrorista, a qual, anos mais tarde , comprovou-se falsa.

Dado o clima de terror instaurado no país após a edição do Ato Institucional nº 5, Marília viveu tempos de extremo desespero pela falta de notícias do marido preso, por imaginar, o que se provou verdadeiro, que passasse por sessões de tortura no cárcere em dependência militar.

Marília tinha recém confirmado a gravidez de sua primeira filha, o que a tornava ainda mais frágil na terrível situação em que se encontrava. Filha que perdeu nos primeiros dias de nascida, estou convencida , por causa das atribulações que a impediram de ter uma gravidez normal.

Mulher forte e decidida empreendeu todos os esforços possíveis para ter de volta seu marido, feito prisioneiro de modo ilegal e violento. A tudo isto assisti solidária, mas impotente como todos os cidadãos comuns brasileiros.

Foram tempos difíceis para todos, mas alguns puderam resistir mais, outros menos. Muitos se afastavam de pessoas consideradas “de risco” naquelas circunstâncias.

Pude ver, no caso de Marília, que tanto as emissoras de rádio, quanto gravadoras e produtores musicais começaram a escassear os convites que lhe faziam outrora. Percebi com clareza à época, e ainda mais com o tempo passado, que sua brilhante carreira de cantora foi quebrada como se ela partilhasse da culpa atribuída ao marido.

Pouco a pouco se impôs à Marília mais obstáculos e maiores barreiras para sua carreira artística.

Na minha opinião ela cumpriu, ainda que fora do cárcere, uma pena tão estúpida e sem razão quanto os milhares de brasileiros presos, torturados, mortos, desaparecidos pela sangrenta ditadura imposta ao país.

Isso é o que gostaria de expressar como testemunho desta parte difícil da vida de minha querida amiga Marília Medalha.

São casos como esse, estórias como essa, vidas partidas como essa que também deveriam constar da Verdade que queremos construir sobre os escombros podres da ditadura militar. Não por ânimo de vingança, inócua a esta altura, mas para dar notícia, aos mais jovens, sobre o quanto nossa geração sofreu e como nossas cicatrizes ainda doem. E que formamos uma multidão de mutilados, física ou emocionalmente.

Vanya Sant’Anna

Este post faz parte da 5a Blogagem Coletiva #desarquivandoBr

http://desarquivandobr.wordpress.com/2012/03/18/convocacao-da-5a-blogagem-coletiva-desarquivandobr-3/

Zum, zum,zum, tá faltando um….

Posted in Avisos, Teatro with tags , , , on maio 6, 2009 by cacaug

 

Mais um que se foi... mas é assim mesmo.

Mais um que se foi... mas é assim mesmo.

Homenagem a Augusto Boal. Boa travessia, irmão…

Homens Propaganda – Crônica de Guarnieri

Posted in crônicas on agosto 6, 2008 by cacaug

Hoje é dia 6 de agosto e Guarnieri estaria fazendo 74 anos. Mais uma crônica publicada para comemorar!

Homens-Propaganda

 

 

Espremia-se no quarto pequeno. A cama estreita quase tocando no armário barato, dificultando a passagem. Casimiro ajoelhou-se na cama e, língua entre os dentes pelo esforço, abriu a porta do guarda-roupa. Embora não tivesse escolha diante do único terno dependurado, ficou alguns instantes indeciso. Finalmente, pegou o cabide, observou a roupa surrada e começou a vestir-se.

Assobiava alegremente. Penteou os cabelos com cuidado, ajeitando meticulosamente os fios rebeldes. Admirou-se em frente à vidraça partida da janela que refletia a imagem de um jovem magro e deselegante de longos braços e pernas, pescoço comprido que segurava uma cabeça menor do que o exigiria a envergadura do corpo. Arrumou o colarinho e, satisfeito consigo, saiu do cubículo, descendo às pressas a escada de degraus rangedores. Deixou o casarão escuro da pensão e foi ao encontro da namorada. Parou numa banca de jornais e comprou uma revista de histórias de amor. Daria de presente. Júlia ficaria contente, gostava muito de fotonovela.

Encontraram-se no portão da casa dos patrões de Júlia, ela já estava à espera num vistoso vestido amarelo, de sapatos vermelhos. Cumprimentaram-se com um aperto de mão e ficaram parados sem saber muito o que dizer, envergonhados, bastante constrangidos. Coube a Casimiro a iniciativa. Estendeu-lhe a revista:

– Tó. Comprei pra você.

Júlia folheou a revista com um sorriso acanhado e devolveu-a com um trejeito:

– Ah, fica com ela. Essa eu já li.

Casimiro enrubesceu.

– Que pena! Puxa, se eu soubesse. Não faz mal, a gente compra outra… Quer ir a algum lugar?

A moça sorriu de novo, com acanhamento…

– Vamo ao cinema, uai!

– Ao cinema? – Casimiro rapidamente procurou fazer as contas. Não dava. Se quisesse levá-la ao cinema, ficava sem tostão para o resto da semana. Não lhe agradava perspectiva de jejum. Procurou desculpas…

– É… cinema é sempre divertido… Mas a gente quase nunca que conversa. Quem sabe um passeio por aí… a gente fala um pouco, se entende, se conhece melhor…

– Quero ir ao cinema.

Não houve jeito. Foram. Casemiro começou mentalmente a fazer a lista dos que poderiam emprestar-lhe algum dinheiro. Não conhecia quase ninguém. Assistiram à fita em silêncio, de mãos dadas. Casimiro procurava esconder a preocupação.

Na saída, ela abraçou-o carinhosamente.

– Agora a gente conversa… Conta de você, do seu trabalho…

– Sei não…

– Resolve, ué. Estou aqui para servir…

Casimiro puxou pigarro:

– Bem… Eu trabalho por conta própria. Bom negócio. Mecânica.

– Que bom. Sempre quis namorá um mecânico.

– Pois então, está namorando…

Riram.

– Você ganha bem?

– Dá pro gasto. Sabe, né. Trabalho por conta varia muito. Tem mês que se tira cem mil, cento e cinqüenta e assim vai indo.

E contou prosa até a casa. Beijaram-se. Ela acenou, ele também. Marcaram encontro para o fim da semana.

Dias depois, estava Casimiro no seu verdadeiro trabalho. Fardado, muito cheio de goma, de quepe e cantil, metido numa fila de homens-propaganda, um cartaz armado sobre a cabeça, muito cabisbaixo caminhando pelo centro. Homem-objeto, homem-nada, rosto neutro em meio a outros homens-coisa-nenhuma, atarantados, ouvindo ordens do capataz que, caminhando um pouco apartado, exigia postura correta. E caminhava exibindo o cartaz da loja de tecidos quando viu, bem na esquina, alegre e vestindo de amarelo, a namorada Júlia. Ficou em desespero, procurou esconder o rosto. Chamou o capataz e pediu para sair da fila. Foi repreendido com grosseria. Lá vinha Júlia com uma companheira. Era inevitável cruzar com ela. E deu-se a catástrofe. Júlia olhou para a fila de homens-propaganda, atenta e penalizada. Casimiro ouviu seu murmúrio:

– Coitadinhos! – E logo depois seu grito – Casimiro!

Ficaram um instante, espantados, olhando um para o outro. Ele impedindo o andamento da fila. E ela estourou numa gargalhada que o estraçalhou inteiro. Nunca mais se viram, nem encontraram.

 

Última Hora, quinta-feira, 26 mar. 1964, p.2, UH-Revista

Os momentos de Zorro – Crônica de Guarnieri

Posted in crônicas, Literatura with tags on junho 29, 2008 by cacaug

Cada manhã, ao ver o sol passando tênue pelas frestas do barraco, levantava-se devagarinho para não acordar o resto, pegava as coisas e saia, pé ante pé, dominando a favela inteira com um olhar seguro de senhor do mundo. Era mulato e criança, cabelo crespo com tons de loiro, camisa e calças largas, em azul e branco, fardamento do grupo. Manchas esbranquiçadas pelo rosto e corpo. Acocorava-se à porta do barraco, miraculosamente erguido na elevação que abruptamente descia para o rio num negro e misterioso precipício, atemorizador e atraente. Aos saltos, um tanto fauno, procurava o seu refúgio. Moita alta e espessa, distante do casario arruinado. Lá, ninguém se atrevia. Depósito do inútil, inferno de lixo mal-cheiroso, terra de bichos e nojo. Dali, saia transformado e temível. Chapéu de feltro, abas amolecidas, máscara negra, um lenço descorando amarrado na nuca, cobrindo-lhe o resto do rosto, a capa verde e curta rasgada nos ombros, amarrada ao pescoço por um barbante vermelho. Na cinta, um revólver de madeira e uma longa espada de arame, punho conseguido com uma manopla de bicicleta. O jovem Zorro abandonava o refúgio e ia à procura do bando. Todos quase do mesmo tope, decididos e obedientes, venerando em cega obediência o chefe temível. Esperava-os um a um, próximo à casa do companheiro, convocando-o com o assobio convencionado. O partidário de Zorro olhava para os lados, verificava se, em casa, não era observado, e apresentava-se feliz, entregue, pronto para novas aventuras. Eram dezesseis, fardamentos dos mais bizarros. Sobressaia-se o chefe com sua capa verde e olhar seguro. As estripulias não tinham conta. Primeiramente, era de hábito esperar os “fresquinhos”. A meninada que comportadamente se dirigia à escola. Interceptavam-nos com violência, aos tapas e pedradas. Após a breve escaramuça, era feito o inventário. Estojos, cadernos, alguns livros e pedaços de calças e camisas, roubados ao inimigo no embate. Depois, breves assaltos a carrocinhas de fruta. Perambulações proveitosas entre as barracas quando dia de feira. Banhos no rio lamacento. Perseguição a meninas sozinhas. Os momentos de excitação e esquecimento com elas nos escondidos de um barraco. Até que vinha a noite e retornavam ao barraco, contando coisas da escola que não viam, mentindo trabalhos nunca realizados, inventando coisas, sossegando os responsáveis. O Zorro, novamente reduzido ao simples mulatinho de manchas esbranquiçadas, despojado da capa e das armas, menino comum, à noitinha enfrentava seus mais perigosos e difíceis momentos. O pai, um tipo espanhol de largas sobrancelhas cerradas, agarrava-o com suas grandes mãos e punha-o de joelhos para ajudar na pintura de bonecos de borracha. O Zorro era hábil, fazia o fundo enquanto o pai dava figuras aos bonecos, criando carantonhas estranhas, peixes, palhaços, sereias, caras vesgas e risonhas. O jovem Zorro ouvia atento, imaginando. Eram histórias terríveis de roubos, brigas e mortes. De lutas em navios, guerras, revoluções sangrentas. E quanto mais o pai se exaltava com o próprio relato, o Zorro encolhia-se medroso. Quase sempre a noite acabava em pancadaria. O homem desabafando no pequeno uma neurose de há tempos. E no seu canto, olhos muito abertos na escuridão da casa, o Zorro revia as imagens evocadas pelo pai. Homens em luta, destroçando-se, lutando por alguma coisa que ele não sabia e que o pai não esclarecia. Eram terras distantes, havia um mar imenso. E adormecia. Um dia, já nas vestes do temível Zorro, escoltado pelo bando fiel, arremessou contra um grupo de meninos que ia para a escola. Um deles não arredou pé e resistiu ao olhar de Zorro. O mulatinho ajeitou a capa com garbo e, riso escondido sob a máscara, ameaçou:

– Me dá tuas coisas, senão te quebro a cara e te deixo nu!

O outro piscou. Sabia que não poderia enfrentar o Zorro e o bando. Engoliu em seco e defendeu-se:

– Pode ser. Mas o que eu sei, você não sabe. – Apontou para o sol. – Aquilo é uma estrela de quinta grandeza!… Castro Alves foi o poeta dos escravos… Tiradentes morreu pela Independência… Deodoro proclamou a República… O Everest é a montanha mais alta do mundo…. E foi desfiando conhecimentos gerais, punhos cerrados, olhos cheios d’água. O Zorro arrancou o lenço do rosto, ofegante.

– E a Guerra Civil Espanhola?

O outro sentiu-se aliviar:

– Houve sim…Não sei direito. Vou perguntar e depois eu conto.

Marcaram encontro para a noitinha. O outro veio com a informação. E modificou-se o bando. O Zorro abandonou  assaltos e brigas. Formaram um círculo de estudos dirigido pelo novo companheiro. Só continuaram a perseguir as meninas

Última Hora, segunda-feira, 2 de março, 1964, p.2, UH-Revista

Primeiro Filho – Crônica de Guarnieri

Posted in crônicas, Literatura with tags , on maio 11, 2008 by cacaug

E o apito da fábrica alegrou mais de mil e quinhentos operários. Metalúrgica. Fim de mais um dia de trabalho.

– Corre, Cabeleira!

– Mete ficha, Cardoso! Praça Clóvis!

– Hoje num vô. Tenho de passá em casa de Marieta!

– Te cuida, menino! Num volta pra casa cansado que a patroa desconfia!

– Deixa isso pra lá…

 

Um rapazote aloirado voltou-se arreganhando a boca num sorriso.

-Praça Clóvis, vamo lá?

– Hoje não, tenho de passá no hospital…

– Doença em casa?

 

Arreganhou mais a boca:

– Que nada. Filho.

– Que filho é esse, rapaz?

– Meu e de minha mulhé, uai!

– Não!

Fechou o sorriso:

– E por que não?

– Pessoal! O espinhudo vai ser  pai!…

 

Num instante foi envolvido pelos companheiros. Tapas nas costas, gozação, arrastaram-no para uma pinga.

– Filho, é Curumim? E tu já sabe fazê isso!

Agora o menino sorria gostoso, avermelhando mais as espinhas.

 

E no hospital, a nº. 3.159 – Alice Marzioto – deu à luz mais um paulistano descendente de italiano. Filho de Pedro, vulgo Curumim – sabe-se lá porquê.

Pedro encostou o rosto no vidro do berçário esborrachando o nariz. De dentro, uma enfermeira de máscara, com um sinal, mandou que ele desencostasse. Pedro obedeceu e perdeu o olhar no meio de tanta criança. Um mundo cor-de-rosa e azul. Quantidade de gente pequena. Não descobriu o filho apesar do desespero e de empenhadas tentativas. No quarto, vendo Alice, não conseguiu dizer coisa nenhuma.

Arreganhou a boca num sorriso e ela também lhe sorriu, satisfeita com o dever cumprido. Achando que devia dizer alguma coisa, galanteou:

–  Bobona!

– Bestalhão!

E ficaram mudos, sorriso aberto, pensando.

 

Pedro conheceu José, o filho.

– Como é feio, minha Nossa Senhora!

– Feio coisa nenhuma! Alice se aborreceu e apertou o menino contra o peito. Mas veio a enfermeira e sumiu com ele da sala.

Mais um meio mundo de mulheres no mesmo estado. Mães numeradas, tudo certinho para evitar trocas. Desespero de Pedro é que trocassem a criança. Quando veio a conta, começaram as complicações. Soma que soma, o dinheiro não dava:

 

– E o sindicato, Curumim?

– Hum?

– O sindicato?

Curumim não era sindicalizado. E veio a afobação; pede aqui, pede ali, mais somas. E nada. Conta alta.

– Que é duro ter filho nessa terra!

 

Nada. Pedro só retiraria a mulher e a criança com a conta paga. Alice desesperou.

– Quero ir embora pra casa. Quero o Zezinho.

– Num chora, boba… Se dá um jeito.

E como o dinheiro não arranjava mesmo, procurou outras fórmulas. E ficou sabendo que um tal de enfermeiro, por uma quantia bem mais razoável, poderia quebrar o galho:

– Mas o senhor garante?

– Apareça lá. À uma hora, sem atraso. Deixe o carro pronto;

– Mas não tem perigo?

– Qual é, baixinho?

 

E Pedro acertou com o Jurandir, chofer de táxi seu vizinho. E, precisamente à uma hora da manhã, estava à espera no local combinado. Uma esquina, nos fundos do hospital. Abre-se uma janela e descem uma corda feita de lençol. No parapeito, camisola branca, surge Alice e o rosto alegre do enfermeiro. Devagarinho ela desce, Pedro embaixo, coração na boca. Alice chega ao chão, abraçam-se e riem, como eles riem! Logo atrás o enfermeiro, segurando Zezinho. O menino parecendo entender mantinha-se calado, olhão arregalado para o céu sem estrelas. Entraram no táxi e voaram para casa. E continuaram rindo até a casa, Alice com Zezinho no colo. Jurandir não aceitou tostão, ofereceu a corrida. Chegando, arrumaram Zezinho na gaveta do armário forrada com capricho. E riram até de manhãzinha.

 

 

Ùltima Hora, terça-feira, 4 fev. 1964, p.2, UH-Revista

Cem Gramas – Crônica de Guarnieri

Posted in crônicas, Literatura with tags , , on abril 28, 2008 by cacaug

Cem Gramas era miúdo e transparente, daí o apelido. Corria sobre duas pernas longas e finas em desproporção com o corpinho mirrado. Arrastava sua caixa de engraxate por um barbante comprido e ensebado. A caixa era seu trem e, às vezes, automóvel, navio, até mesmo avião. E corria pelas ruas, a caixa atrás, saltando, batendo, lascando-se no calçamento. Era seu instrumento de trabalho, brinquedo e cofre. Lá dentro, de mistura com graxa, escova e flanelas, as riquezas de Cem Gramas: um punhado de figurinhas, selos do Correio Nacional, uma caneta tinteiro sem pena, três bolinhas de gude, duas tiras de papelão ondulado, um “bob” de enrolar cabelo, uma faquinha de lâmina partida.Já perdera muitos fregueses por ficar absorto, manuseando a tralha, enquanto outros engraxates, mais vivos, tomavam conta do cliente. Em verdade, raras vezes Cem Gramas conseguia serviço. Na disputa pelo trabalho, levava sempre a pior. Bastava um empurrão, de leve, para deixar Cem Gramas sem ação, vencido, choramingando. O que levava para casa era fruto de caridade. Gente que se compadecia e, sem usar de seus préstimos, lhe atirava alguma nota miúda. Cem Gramas não tinha o talento de alguns dos companheiros. Tuíra, o negrinho, atraía o freguês compondo sambas na hora, engraxando e batendo o ritmo na caixa; Miguelzinho utilizava com habilidade um sorriso gostoso de moleque maroto; Bentinho sabia enaltecer a superior qualidade do material que usava; Jamegão contava piadas incríveis; Rui Barbosa entretinha o freguês falando sobre política, com toda a autoridade de seus sete anos. Cem Gramas não fazia nada. Podia atrair despertando compaixão, mas não se dava ao trabalho. O que conseguia não era por mérito. Não descobrira ainda a indústria da piedade. Distraído, boca sempre aberta, olhos arregalados como numa admiração constante, deixava-se viver, muito só, resignado, descobrindo as coisas do mundo, uma a uma, com moderado interesse.

Sabia que voltando à favela com pouco ou sem dinheiro levaria uma surra dolorida, raivosa. O pai – se era pai mesmo ninguém sabia – não se dava bem com o trabalho e quase sempre folgava, embebedando-se desde cedo. A mãe, mulher coitada, com dores, cuidando como podia de um barraco em ruína e do nada que tinha. Trabalho mesmo era dos pequenos, cinco crianças magras e largadas, entre elas o Cem Gramas. Dois engraxavam e três vendiam coisas: pentes, barbatanas e flor. O negócio estava em processo de ampliação. Tinha os fornecedores, os intermediários e a mão-de-obra miúda e doentia. Diziam, com orgulho, trabalhar no comércio. Temendo a pancada, arrumavam-se todos de outra forma, que o rendimento das vendas nem sempre era considerável. E daí, que o maiorzinho – Julito- já estava adquirindo fama de punguista. Cem Gramas é que não tomava jeito. Resignando-se, cada vez mais, às surras, não se importava muito com dinheiro, mesmo porque não lhe conhecia o valor. Mas de tanto apanhar acabou por perder dois dentes e a dor foi aguda. Acabou por compreender o que se exigia dele e resolveu atender o pai. Mas dinheiro não vinha que não sabia criar habilidade. Foi quando recebeu a proposta de Juvenal, o Mais-que-Deus (o apelido provinha da extrema vaidade e prepotência do dito). O que tinha a fazer era simples: postar-se na estrada e à aproximação de alguém, chorar e simular fortes dores pelo corpo. Achou fácil e até engraçado e, lá pelas dez horas, foi pra estrada e fez tudo como o combinado. O primeiro passante não caiu no conto, nem o segundo e terceiro, mas o quarto, um senhor já, acudiu o menino, levando-o para a margem da estrada. De um salto, Mais-que-Deus fez o serviço. E, no fim da noite, depois de muito se repetir o jogo, foi feito o balanço. Oito contos e trocados, relógios, dois anéis, dois chaveiros, as peças de um caminhão e um morto. Cem Gramas ganhou mil cruzeiros em notas de duzentos. Preferia os anéis e mesmo os chaveiros. Mais-que-Deus não quis saber:

–      Fica com isso, isso é que serve. Dá uma nota dessas pro teu velho, uma só. Gasta o resto. Depois vem mais. E só…

Passou os dedos nos lábios impondo segredo. E Cem Gramas obedeceu. Deu uma nota de duzentos para o pai e naquele dia não apanhou. Andou de táxi e teve muita alegria. Perdeu uma das notas e guardou a outra na caixa de engraxate. À noitinha saiu à cata de Mais-que-Deus, procurando serviço.

Última Hora, Sexta-feira, 14 de fevereiro, 1964, p.2, UH-Revista

Murié e as Alturas – Crônica de Guarnieri

Posted in crônicas, Literatura with tags , on abril 17, 2008 by cacaug

O livro foi lançado  ontem e este blog passa agora a publicar algumas das crônicas de Guarnieri – material maravilhoso. A primeira da fila é :

Murié e as alturas

Gianfrancesco Guarnieri

Acionaram o elevadorzinho de madeira e Murié fechou os olhos, segurando firmemente a tábua que servia de balaústre. Uma subida de nunca mais se acabar. Mas era um prédio pequeno, atingiria oito andares somente. Chegando ao topo, de um salto, ganhou a plataforma de concreto e, não conseguindo dominar-se, deixou-se cair sentado. Agarrou os joelhos com força, procurando conter o tremor que lhe sacudia o corpo. O sol já ia alto e abrasava a plataforma imensa de onde brotavam, hirtos, grupos de arames em ponta. Olhou para o alto semicerrando os olhos, reforçando-lhes as rugas. O suor escorria-lhe pelo peito nu. Deslumbrado, escondeu a cabeça entre os braços e deixou-se ficar, clarões vermelhos explodindo na escuridão, coração aos pulos e aquele tremor convulsivo. A mão de alguém pesou-lhe nos ombros. Levantou a cabeça com susto, temendo fosse o mestre-de-obras. Era Pedro. Sorriu contrafeito e tentou uma explicação:

– Vertigem. Ta me dando agora quase todo dia. Mariana diz que deve ser da vista. Eu já não. Acho que é do estômago. Me dá um vazio por dentro cada vez que subo…

– Tá é precisando de descanso, velho!

– É! Também pode ser.

Tentou erguer-se. As pernas continuavam trêmulas. Ao ver, lá embaixo, apequenados pela altura, os companheiros trabalhando, os automóveis cruzando-se na rua, agarrou-se com força ao braço de Pedro e chorou igual criança. Procurando acalmá-lo, Pedro levou-o, devagarinho, até o centro da plataforma. Murié soluçava, lágrimas rolando pelo rosto tisnado. A cada sacudir do corpo curvo do pedreiro, o amigo batia-lhe nos ombros, palmadinhas de consolo, numa solidariedade muda, pois palavras não cabiam. E se Murié chorava estava no seu direito que jeito mais nenhum não tinha. Pedreiro velho e acabado, com vertigem e tonturas; pedreiro com raiva do espaço é pedreiro findo, já sem forças e sem armas para o trabalho. Que é dado ao homem escolher um momento para desabafo. Depois, quando Murié – mais calmo e já no térreo – mastigava o conteúdo parco da marmita, ponderou Pedro com siso:

– Talvez, o melhor seja mesmo procurar outro modo de sustento. Trabalho mais calmo. Quem sabe, um emprego de vigia. Na construtora mesmo pode se encontrar colocação…

Era um fato. Murié murmurou um assentimento. Não via também outra solução. Solução a meio, insatisfatória. Que Murié tinha vida difícil como a de todo pobre, é claro e limpo para quem olhe o mundo com olho honesto. Mas com esforço e às custas da saúde, conseguira manter em nível de vida mínimo: uma mulher mãe de quatro filhos. Três do primeiro casamento. Um, seu. Tratava os quatro sem distinção. O que comia um comia outro. E mais, vestia o pequeno com a sobra dos maiores. As roupas do caçula, tendo passado de corpo em corpo neles se mantendo enquanto cabiam, eram remendos só. Remendos limpos, bem lavados e até recendendo a capim-cheiroso, que a mulher era de capricho e trabalhadeira. E Murié tinha lá seus orgulhos: de Mariana, do aprumo dos filhos, dos edifícios. Trabalhara num sem número de construções. Mesmo nas grandes. Tinha satisfação contemplando a obra feita. Ele e os outros. Erguendo aquelas estruturas enormes, onde gente morava, onde carros entravam, carros bonitos, de todas as cores. E as pessoas também eram bonitas. Existia um prédio que era o que Murié mais gostava, Gigante de vinte andares, envidraçado, forte. E, à saída do trabalho, não poucas vezes Murié se deixava parado, olhando, entusiasmado com a obra feita. Depois, voltava para a casinha alugada, minúscula e distante, mas bem melhor que o barraco em que começara a vida. Deixar o emprego, procurar outra colocação. Retrocesso que desgostava Murié. Não poderia admitir a diminuição da entrada mensal. Logo agora que pensava em aumento. Cada tostão, todo contadinho, organizado, aluguel, comida e as doídas prestações consumindo tudo. Não. Mariana estava com a razão. Aquelas vertigens deviam ser causadas pela vista. Os olhos não iam bem. Iria ao Instituto. Resolveria a coisa. Óculos, eis tudo…

Comeu a banana, que Mariana se lembrara da sobremesa e, resolvido, voltou para o elevador, subiu e caiu.

Última Hora, quinta-feira 13 de fevereiro, 1964, p.2, UH-Revista